Há histórias que o corpo também aprende a contar.


A fotografia de casamento ampliou o meu mundo.


Por meio dela, conheci meus ídolos e, em alguns momentos, tive o privilégio de inspirar pessoas que também me inspiravam.


Ela me levou para os quatro cantos do Brasil. Conheci fotógrafos de realidades completamente diferentes da minha. Ensinei muito, mas aprendi ainda mais.

Vivi centenas de histórias.


Casais maravilhosos.


Famílias generosas.


Momentos inesquecíveis.


Também conheci famílias difíceis.


Conflitos.


Silêncios.


Porque a fotografia documental não escolhe apenas os momentos bonitos.


Ela testemunha a vida como ela é.


De fora, porém, a profissão parece bem diferente.


"A fotografia deu dinheiro."


Não. Nós trabalhamos por ele.


"Você come aquelas coisas maravilhosas em todos os casamentos."


Sabe de nada, inocente.


"Fotógrafo trabalha só aos sábados."


Claro. Todo o restante do trabalho se faz sozinho.


"Você viajava o Brasil inteiro, passeava e ainda ganhava dinheiro."


Na realidade, eram aeroportos, hotéis, malas lotadas de equipamentos, caixas de livros pesadíssimas, workshops de dois dias e, muitas vezes, um novo voo logo na manhã seguinte.


Criamos nossa filha nesse ritmo.


Conquistamos patrimônio.


Perdemos patrimônio.


Erramos muito e aprendemos com nossas experiências, procurando sempre cometer erros novos.


Foi só muitos anos depois que percebi que a fotografia nunca tinha sido apenas a minha profissão.


Ela havia se tornado parte de quem eu era.


E foi justamente por isso que ela também conseguiu me tirar algumas coisas.


Tirou-me festas de família.


Churrascos.


Encontros com amigos.


Datas importantes.


Enquanto quase todo mundo descansava aos fins de semana, nós estávamos trabalhando.


Existe uma lembrança que jamais saiu de mim.


Pouco tempo depois de nos mudarmos para o Sul do país, começamos a viajar pelo Brasil ministrando workshops.


Em uma dessas viagens, estávamos em Vitória, no Espírito Santo, quando o telefone tocou.


Era a nossa vizinha.


A Fezinha não conseguia dormir.


Sentia-se insegura sem nós.


Nunca esquecerei daquela noite.


Uma menina pequena tentando dormir sem os pais.


Uma amiga segurando as pontas.


Uma mãe orando pelo telefone.


Passamos horas assim.


Eu.


Minha filha.


E a Lilian, do outro lado da linha.


Naquela noite, ela cuidou da Fezinha.


Sem imaginar que, anos depois, eu escreveria sobre isso.


Deixar um filho para trás é uma culpa e uma dor que só outra mãe consegue mensurar.


Naquela época, eu achava que a fotografia estava levando um pedaço da minha família.


Hoje percebo que ela também estava nos dando outra.




A fotografia me permitiu testemunhar histórias extraordinárias.


Mas, às vezes, me impediu de viver alguns capítulos da minha própria.


Depois, um dia, o corpo começou a cobrar a conta.


Foram milhares de horas em pé.


Quilos de equipamentos sobre os ombros.


Escadas.


Corridas.


Agachamentos.


Sempre buscando o melhor ângulo sem interferir na emoção de quem estava vivendo aquele momento.

Vieram as dores.


Depois, as cirurgias.


Os parafusos.


Vieram as inúmeras e intermináveis sessões de fisioterapia, que seguem fazendo parte da minha rotina até hoje.


É quase um eterno:


"Conserta aqui."


"Descobre um problema ali."


Arruma uma coisa.


Sobrecarrega outra.


Esta radiografia também faz parte do meu currículo.


A fotografia também mudou a forma como me visto.


Foram-se os scarpins.


Vieram os tênis masculinos, largos, escolhidos menos pela aparência e mais pela capacidade de me permitir terminar um casamento em pé.


Nunca imaginei que um dia meu guarda-roupa seria decidido pelos meus pés.


Para fotografar um casamento como ele merece, não basta ter uma boa câmera.


É preciso preparar o corpo.


Cuidar da mente.


Alimentar a criatividade.


Estudar.


Observar.


Aprender.


Também alimentando o vício — e a suposta e infinita necessidade — de novos equipamentos que respondam àquilo que minha mente imagina, meus dedos pedem e meu olhar clama.


Durante um período da minha vida, vivi uma espécie de divórcio com a fotografia.


Foi um divórcio silencioso.


Eu continuava vivendo.


Continuava trabalhando.


Mas já não era inteira.


Perdi junto com ela a minha essência.


Perdi a alegria.


Eu me punia por continuar vendo noivas em todos os lugares.


Queria não pensar nisso.


Não procurar enquadramentos.


Não imaginar um casal dentro da cena diante dos meus olhos.


Mas jamais consegui.


Era inevitável.


Em algum momento, meu olhar sempre encontrava uma noiva.


Um véu.


Duas mãos entrelaçadas.


Um casal.


Uma aliança.


Talvez a fotografia nunca tenha ido embora.


Quem precisou encontrar o caminho de volta fui eu.


Mas existe uma curiosidade.


A fotografia de casamento sempre acaba me encontrando.


Ela me encontrou durante um retiro na Flórida.


Me encontrou em Buenos Aires.


Me encontrou em Lisboa.


Me encontrou em Londres.


E tenho certeza de que um dia vai me encontrar na Times Square, em Nova York.


Ainda alimento o sonho de fotografar uma noiva atravessando aquela multidão, com o véu esvoaçando ao vento.


Não importa para onde eu vá.


Em algum momento, ela aparece.


Como uma velha amiga que sorri e diz:

"Achei você de novo."


Ou talvez seja eu quem nunca tenha parado de procurá-la.


Quando finalmente me reconciliei com ela...


Abri as comportas.


Permiti-me enxergar novamente noivas, véus, casais, mãos e alianças em cada canto para onde olho.


Mais do que isso.


Permiti-me reencontrar a mim mesma.


Talvez um dia meus pés deixem de aguentar.


Talvez eu precise fotografar menos.


Talvez eu caminhe mais devagar.


Hoje não uso scarpins.


Caminho diferente.


E, curiosamente, nunca me senti tão perto da fotografia.


A fotografia de casamento me tirou muita coisa.


E, quando nos reconciliamos, ela me devolveu o que havia de mais importante.


Minha essência.


Minha alegria.


A maneira como aprendi a enxergar o mundo.


E uma coleção de histórias que jamais caberia em um único álbum.


A absoluta certeza de que algumas histórias não escolhemos viver.


Elas escolhem a gente.


A fotografia de casamento escolheu a mim.


E, sinceramente... eu a escolheria outra vez.


Sobre a autora


Fernanda Marques é mãe, esposa e fotógrafa documental de casamentos desde 1998. Autora e palestrante, construiu sua trajetória contando histórias reais de casais e famílias. Ao lado do marido, Reinaldo Martins, compartilha a vida e também a fotografia. Para ela, uma imagem não registra apenas o que aconteceu. Ela preserva emoções, vínculos e instantes que um dia se transformarão em legado para as próximas gerações.


A family of three smiling together, with a young girl wearing a red Flamenco hat between two adults.
A família que a fotografia nos deu: Lilian, Mané e a Manu - que não está na foto com a Maria Fernanda, nossa filha, mas, junto com os pais, ajudou a cuidar da nossa pequena como uma verdadeira irmã.