Era agosto de 2008, salvo engano.


O Rei chegou em casa dizendo que iria participar de um evento sobre fotografia de estúdio.


Minha reação foi imediata.


— Pra quê? Nós nem fazemos fotografia de estúdio.


Ele respondeu com a tranquilidade de sempre.


— Justamente por isso. Quero dar uma refrigerada nas ideias.


Fui olhar a programação.


Iluminação.


Retratos.


Nu artístico.


Na minha cabeça, a conclusão foi imediata.


"Ah... agora entendi o interesse..."


Só que eu não tinha entendido absolutamente nada.


Não era sobre fotografia de estúdio.


No primeiro dia do evento, o Rei parou diante de um banner.


Era a divulgação de um congresso que aconteceria no ano seguinte.


Um congresso inteiramente dedicado à fotografia de casamento.


Ele ficou ali por alguns minutos.


Lendo.


Pensando.


Sem imaginar que aqueles seriam alguns dos minutos mais importantes da nossa vida profissional.

Quando voltou para casa estava entusiasmado.


— Fê, os caras vão fazer um congresso de fotografia de casamento! A gente precisa participar.


Sorri.


— Agora sim. Isso faz sentido.


O que eu não sabia era que ele já tinha ido muito além.


No dia seguinte voltou estranho.


Quieto.


Achei curioso.


Afinal, era justamente o dia das demonstrações de nu artístico.


Só mais tarde ele contou.


— Lembra daquele banner?


— Lembro.


— Entreguei nosso cartão para uma das organizadoras. Acho que o nome dela era Dani.


— Entregou o cartão pra quê?


Ele respondeu como quem comenta a previsão do tempo.


— Pra dizer que gostaria que a gente desse uma palestra no congresso.


Eu quase tive um troço.


Nunca tínhamos dado uma palestra.


Nunca tínhamos ensinado fotografia.


Na minha cabeça, ele tinha enlouquecido.


Algumas semanas depois, o telefone tocou.


Tinham visto nosso site.


Gostado muito do nosso trabalho.


Queriam nos convidar para falar sobre fotojornalismo em casamentos.


Pronto. Agora não tinha mais volta.


Passamos meses preparando tudo.


Os slides.


O clipe.


A demonstração ao vivo.


Mas, principalmente, passamos meses tentando responder uma pergunta que nunca tínhamos feito.


Por que fotografamos casamentos da forma como fotografamos?


Sem perceber, aquela preparação já estava nos transformando.


Então chegou o grande dia.


A caminhada do carro até o auditório pareceu longa.


O sol aquecia meus cabelos.


Meus olhos ardiam tanto que, por alguns instantes, caminhei de olhos fechados, segurando a mão do Rei.


Conversávamos sobre aquela oportunidade.


Prometemos um ao outro que daríamos tudo o que tínhamos.


Não havia nada a perder.


Atrás da cortina, olhei para ele e disse:


— Amor, você começa. Eu esqueci tudo.


Ele arregalou os olhos.


— Eu ia te pedir exatamente a mesma coisa.


Nesse instante ouvimos:


— Com vocês, Fernanda Marques e Reinaldo Martins!


As cortinas se abriram.


Minha boca ainda estava aberta.


O auditório estava completamente lotado.


O Rei assumiu o comando imediatamente.


Falava sem parar.


Emendava uma ideia na outra.


Toda vez que eu tentava entrar, ele continuava.


Até que interrompi.


— Posso falar?


O auditório inteiro caiu na risada.


Naquele instante, o gelo acabou.


A partir dali tudo fluiu.


Ele falava.


Eu falava.


Ele fotografava.


Eu fotografava.


As imagens apareciam ao vivo nas enormes telas do auditório.


Não havia espaço para erro.


Quanto mais empolgado ele ficava falando, mais esquecia que também precisava fotografar.


Eu aproveitei.


Fiquei em silêncio.


Concentrei-me completamente.


Uma fotografia minha apareceu enorme nas telas.


Alguém gritou da plateia:


— Chama a Fernanda!


Sem combinar, nossa palestra virou uma divertida disputa.


O público entrou na brincadeira.


No final resolvemos fazer uma pequena loucura.


Começamos a cantar.


"Se você está contente, bata palmas..."


Quase mil fotógrafos cantavam.


Batiam palmas.


Batiam os pés.


Até os noivos, o padre e todos os figurantes do casamento fictício entraram na brincadeira.


Pessoas que estavam do lado de fora invadiram o auditório tentando descobrir o que estava acontecendo ali dentro.


Quando terminamos, veio uma salva de palmas de pé que parecia não acabar.


Nos bastidores, desconhecidos nos abraçavam.


Pediam fotos.


Conversavam conosco como se nos conhecessem havia anos.


Mas hoje percebo que o maior presente daquele dia não foram os aplausos.


Foi a descoberta.


Naquele palco entendemos que existia algo que amávamos quase tanto quanto fotografar.


Ensinar.


Compartilhar.


Aprender junto.


Durante muito tempo achei que nossa história tivesse começado naquele palco.


Depois achei que tivesse começado diante daquele banner.


Hoje penso diferente.


Ela começou no instante em que o Rei decidiu fazer uma coisa que não combinava em nada com a personalidade dele.


Entregar um cartão de visitas para uma desconhecida.


Era apenas um pedaço de papel.


Ou, pelo menos, foi isso que pensei durante muitos anos.


Hoje sei que aquele cartão carregava muito mais do que nossos nomes, um telefone e um endereço.


Carregava uma decisão.


Carregava uma oportunidade.


Carregava um futuro inteiro que ainda não existia.


Porque, às vezes...


a coragem cabe em um cartão de visitas.



Sobre a autora


Fernanda Marques é mãe, esposa e fotógrafa documental de casamentos desde 1998. Autora e palestrante, construiu sua trajetória contando histórias reais de casais e famílias. Ao lado do marido, Reinaldo Martins, compartilha a vida e também a fotografia. Para ela, uma imagem não registra apenas o que aconteceu. Ela preserva emoções, vínculos e instantes que um dia se transformarão em legado para as próximas gerações.