Encontrei esta fotografia por acaso.
Não sei exatamente de que ano ela é.
Mas reconheci imediatamente essa menina.
Ela tinha quinze, dezeseis anos.
Naquele momento, eu não sonhava em escrever um livro, subir em palcos, fotografar centenas de casamentos ou construir uma carreira na fotografia.
Naquela época, a única pergunta que realmente importava era outra.
O que precisa ser feito?
O Reinaldo havia acabado de sair de uma sociedade e atravessava um momento difícil. Havia incertezas, contas para pagar e um futuro completamente em aberto.
Em vez de perguntarmos o que tínhamos perdido, olhamos para o que ainda existia.
Que equipamentos haviam sobrado?
O que sabíamos fazer?
Foi assim que começou a nossa vida nos eventos.
Compramos um computador Amiga para edição de vídeo. Hoje ele parece peça de museu, mas, na época, inserir caracteres em um vídeo era um diferencial importante. Aos poucos vieram os equipamentos de som, iluminação, projeção e filmagem.
Carregávamos uma Fiorino cheia de caixas de som, tripés, cabos e equipamentos.
Montávamos tudo.
O Reinaldo cuidava do som e da iluminação.
Eu filmava.
Vieram festas infantis, aniversários de quinze anos, casamentos e tantos outros eventos que já perdi a conta.
As câmeras eram enormes.
As baterias também.
Passei anos carregando uma filmadora no ombro, registrando histórias.
Nunca pensei muito no peso.
Ela era apenas a ferramenta necessária para fazer o trabalho.
Os anos passaram.
As ferramentas mudaram.
As câmeras diminuíram.
Quando os casais passaram a contratar apenas fotografia, deixei a filmadora de lado e comecei a acompanhar o Reinaldo como assistente.
Fazia um clique aqui, outro ali, sempre com cuidado. Naquela época, cada fotografia tinha um custo.
Filme, revelação, ampliação. Não existia espaço para desperdiçar um único clique.
Até que, em um casamento, algumas fotografias chamaram nossa atenção.
Sem perceber, eu já não era apenas a assistente.
A fotografia havia encontrado o seu lugar em mim.
Depois vieram os álbuns.
O livro.
As palestras.
Os congressos.
Centenas de casamentos.
Olhando para essa fotografia hoje, percebo que quase tudo mudou.
A câmera mudou.
A tecnologia mudou.
A forma de trabalhar mudou.
Mas existe uma coisa que permaneceu exatamente igual.
A responsabilidade.
Porque, no fim das contas, os melhores profissionais que conheci nunca foram definidos pelo equipamento que carregavam nas mãos.
Foram definidos pela forma como encaravam o trabalho.
Ainda hoje acredito que competência começa muito antes da técnica.
Começa quando alguém olha para uma situação difícil e faz a pergunta certa.
Não:
"Por que isso aconteceu?"
Nem:
"Quem vai resolver?"
Mas...
O que precisa ser feito?
Sobre a autora
Fernanda Marques é mãe, esposa e fotógrafa documental de casamentos desde 1998. Autora e palestrante, construiu sua trajetória contando histórias reais de casais e famílias. Ao lado do marido, Reinaldo Martins, compartilha a vida e também a fotografia. Para ela, uma imagem não registra apenas o que aconteceu. Ela preserva emoções, vínculos e instantes que um dia se transformarão em legado para as próximas gerações.



