Durante muitos anos, achei que fotografar casamentos era o meu trabalho.


Hoje sei que era muito mais do que isso.


Era uma responsabilidade que começava muito antes da noiva colocar o vestido e terminava muito depois da última música da festa.


E talvez seja justamente por isso que, um dia, eu não quis mais fotografar.


Não aconteceu de repente.


Foi aos poucos.


Nunca acordei pensando:

"Quero ser fotógrafa."


A fotografia simplesmente aconteceu.


Naquela época, o dinheiro era curto demais para contratar fotógrafos freelancers e, quando conseguíamos contratá-los, existia outro problema: alguns simplesmente aceitavam um cachê maior e desapareciam.


Eu já trabalhava nos casamentos como videomaker, assistente de fotografia, assistente de flash.


Também carregava equipamentos. Um dia peguei uma câmera.


Nunca mais devolvi.


Quando percebi, minha vida era feita de casamentos.


Sexta-feira.


Dois no sábado.


Domingo.


E então tudo começava outra vez.


Mas pouca gente imagina que um casamento começa muito antes da cerimônia.


Existiam as feiras.


Eu nunca gostei delas.


Horas em pé.


Falando sem parar.


Sorrindo.


Enquanto, ao lado, havia empresas enormes, estandes impecáveis e álbuns maravilhosos.


Só que existia uma diferença.


Nós mostrávamos exatamente quem iria fotografar aquele casamento.


Muitas empresas exibiam o melhor álbum produzido pelo melhor fotógrafo da equipe. Geralmente, um casamento de celebridade — os influenciadores daquela época. O casal comprava aquele sonho. No dia do casamento, porém, quem aparecia podia ser qualquer fotógrafo disponível.


Sempre achei isso profundamente desleal.


Mesmo assim, graças a Deus, havia conversas que compensavam tudo.


Alguns casais falavam sobre suas famílias.


Sobre como haviam se conhecido.


Sobre seus medos.


Sobre os sonhos que tinham para aquele dia.


Essas conversas me lembravam por que eu estava ali.


Outros queriam saber apenas:

— Qual o tamanho do álbum?

— Tem kit sogra?


Confesso.

Essa pergunta sempre me fazia morrer um pouquinho por dentro.


Depois vinham as reuniões.


Muitas aconteciam na nossa própria casa.


Abríamos álbuns.


Contávamos histórias.


Tentávamos entender quem eram aquelas pessoas.


Não era apenas vender fotografia.


Era construir intimidade.


Aqueles encontros seriam fundamentais meses depois.


Porque os dez minutos que eu teria para fotografar o casal antes da entrada na festa não começavam ali.


Eles começavam naquela primeira conversa.


Naquele café.


Naquele dia em que dois desconhecidos decidiram confiar em nós.


Era dessa relação construída ao longo dos meses que nasciam os olhares, os sorrisos e a cumplicidade daqueles poucos minutos.


Então chegava o casamento.


Minha cabeça disparava...


Será que vai chover?


Será que o trânsito vai parar?


Será que vamos conseguir estacionar?


Será que todos os cartões estão comigo?


Será que carreguei todas as baterias?


Será que esqueci alguma lente?


Sabíamos que não.


Era como passar pelo raio X do aeroporto e pensar:

"Será que estou armado?"


Você sabe perfeitamente que não está.


Mesmo assim, por um segundo, a dúvida aparece.


A cabeça da gente prega peças.


Eu jamais esqueceria cartões.


As baterias estavam carregadas.


As câmeras revisadas.


A brincadeira com o Tio Murphy era constante.


— Hoje o Tio Murphy veio trabalhar com a gente.


"Que Tio Murphy?"


— A Lei de Murphy!


Porque, em um casamento, não existe segunda chance.


Saíamos carregando nas costas equipamentos que representavam anos de trabalho.


Chegávamos ao salão.


O manobrista quase sempre fazia de conta que não nos viu chegar.


Então éramos nós.


Mochilas.


Malas.


Equipamentos.


Anos de trabalho equilibrados nas costas.


Lá dentro começava outra batalha.


Salões lotados.


Secadores ligados.


Cheiro de esmalte.


Produtos químicos.


Música.


Conversas.


Maquiadoras.


Cabeleireiros.


Familiares.


Amigas.


Todo mundo trabalhando.


Eu era a pessoa menos importante daquela sala.


Sempre achei que esse era exatamente o meu lugar.


O fotógrafo não deveria ser protagonista.


Ele deveria desaparecer.


No começo eu escutava tudo.


Depois aconteceu uma coisa curiosa.


Aprendi a desligar o mundo.


Pouco a pouco, o barulho desaparecia.


As pessoas desapareciam.


Restavam apenas a noiva.


A maquiadora.


Os pincéis.


O espelho.


A luz.


Era quase um transe.


Só então eu conseguia fotografar.


Depois vinha a parte que eu realmente amava.


A transformação.


A mulher desaparecendo.


A noiva surgindo.


As costas nuas.


As mãos.


O véu.


A meia.


Os pequenos silêncios.


Essa continua sendo uma das partes mais bonitas de um casamento.


Terminava o making of.


Corríamos para a igreja.


O motorista da noiva sempre prometia esperar.


Nem sempre cumpria.


Precisávamos chegar antes.


Estacionar.


Entrar.


A noiva ainda dentro do carro.


O pai segurando sua mão.


A porta abrindo.


Ela caminhando.


Eu corria pela lateral.


Depois corria outra vez para vê-la de frente.


Enquanto isso, o Rei já estava em outro lugar.


É assim que sempre trabalhamos.


Quando eu fotografava as costas da noiva entrando, ele já estava esperando o olhar do noivo.


Não era apenas ter dois fotógrafos.


Era sobre ter lentes diferentes.


Sobre dois olhares.


Duas maneiras de enxergar a mesma cena.


Dois posicionamentos completamente diferentes.


Uma única história.


Contada por dois pontos de vista.


Durante a cerimônia, eu praticamente deixava de existir.


Algumas eram tão rápidas que, quando terminavam, eu mal lembrava do que tinha fotografado.


Não porque não prestasse atenção.


Pelo contrário.


Era uma concentração tão profunda que tudo acontecia quase sem pensamento consciente.


Como dirigir por quilômetros e, ao chegar, perceber que não lembra exatamente do caminho.


Enquanto isso, uma parte da minha atenção permanecia em outro lugar.


Nas mochilas encostadas em um canto da igreja.


Lá estavam carregadores.


Cabos.


Lentes extras.


Parte do equipamento.


Anos de trabalho.


Quantas histórias já ouvimos de colegas que perderam tudo em poucos segundos.


Chegávamos à festa.


Outra corrida.


Guardar equipamentos.


Encontrar o casal.


Cumprimentar o maître.


Sorrir para a equipe.


Para os garçons.


Não porque eu fosse fazer amigos naquela noite.


Mas porque um sorriso sincero, às vezes, voltava na forma de um copo d'água.


Um refrigerante.


Quem sabe um salgado.


Depois de tantas horas em pé, pequenos gestos pareciam enormes.


E havia as cerimonialistas.


Algumas foram verdadeiros presentes.


Outras pareciam acreditar que precisavam vencer uma disputa que só existia na cabeça delas.


Às vezes ganhávamos dez ou quinze minutos antes da entrada na festa.


Quem olha aquelas fotografias imagina direção.


Poses.


Técnica.


Eu via outra coisa.


Via confiança.


Porque aqueles olhares não eram criados em quinze minutos.


Eles eram consequência de meses construindo uma relação.


Então eu esperava.


Um olhar.


Um suspiro.


Aquela respiração que já não cabe no nariz e escapa pela boca.


É nesse instante que duas pessoas deixam de posar.


E voltam a ser apenas duas pessoas apaixonadas.


Era isso que eu procurava.


Depois a festa começava.



Primeira dança.


Brinde.


Bolo.


Pais.


Avós.


Padrinhos.


Amigos.


A luz precisava estar certa.


O momento também.


Deitar no chão para conseguir um clique nunca foi exceção.


Era rotina.


Só me dava conta disso quando chegava em casa.


Vinho no sapato.


Cerveja na camisa.


Marcas nos joelhos.


Quando o casal finalmente sentava para jantar, eu também queria jantar.


Mas nem sempre podia.


Se eu fosse depois e eles se levantassem antes, perderia a única oportunidade de comer.


Era uma negociação constante.


Às vezes dava certo.


Às vezes não.


Duas da manhã.


Perguntávamos:


— Finalizamos nossa parte. Tem mais alguma coisa?


Eles respondiam:


— Só mais um minutinho.


E esse minutinho quase sempre significava uma banda.


Uma escola de samba.


Alguma surpresa.


Mais uma hora de trabalho.


Voltávamos para casa.


O cabelo cheirava a fumaça.


À festa.


Meu sapato tinha vinho.


Minha roupa tinha cerveja.


Os pés queimavam.


A joanete pulsava.


As pernas latejavam.


A mão formigava.


Eu queria apenas dormir.


Mas antes precisava lavar o cabelo.


Se não lavasse, acordaria durante a madrugada sentindo o cheiro da festa no travesseiro.


Tomava banho.


Lavava.


Secava.


Deitava.


Dormia em segundos.


Poucas horas depois, os olhos abriam ardendo.


Pareciam cheios de areia.


E tudo começava outra vez.


Depois ainda havia as fotografias.


Seleção.


Tratamento.


Diagramação.


Os casais demoravam meses para aprovar o álbum.


Enquanto isso, novos casamentos aconteciam.


Novos álbuns chegavam.


As luzinhas de Natal apareciam pelas ruas.


E, junto com elas, a mesma urgência.


Todo casal queria mostrar o álbum para a família durante a ceia de Natal.


Então eu diagramava correndo, lutava por uma aprovação mais rápida e enviava o arquivo para a encadernadora.


"Será que chega antes do Natal?"


Chegava o dia 23 de dezembro, e nós éramos Papai Noel, entregando álbuns de casamentos de anos atrás.


Até que um dia eu cansei.


Não da fotografia.


Da vida que existia ao redor dela.


Vieram os pesadelos.


Sonhava que perdia a entrada da noiva.


Que roubavam meu equipamento.


Que chegava atrasada.


Acordava cansada antes mesmo de trabalhar.


Achei que aquele capítulo tivesse terminado.


Conheci outras áreas.


Educação.


Marketing.


Educação médica.


Estudei.


Viajei.


Aprendi muito.


Foram anos importantes.


Mas havia uma sensação estranha.


Eu estava vivendo.


Só não estava me sentindo viva.


Até que um dia o Rei me perguntou:


— O que faria você feliz?


Nem precisei pensar.


— Fotografia de casamentos.


Alguns meses depois, acordei antes do despertador.


Minha cabeça começou a lista.


"Será que vai chover?"


"Será que o trânsito..."


Parei no meio da frase.


Sorri.


Fazia muitos anos que aquela ansiedade já não parecia medo.


Parecia saudade.



Sobre a autora


Fernanda Marques é mãe, esposa e fotógrafa documental de casamentos desde 1998. Autora e palestrante, construiu sua trajetória contando histórias reais de casais e famílias. Ao lado do marido, Reinaldo Martins, compartilha a vida e também a fotografia. Para ela, uma imagem não registra apenas o que aconteceu. Ela preserva emoções, vínculos e instantes que um dia se transformarão em legado para as próximas gerações.