Existe uma maneira bastante confortável de fotografar um casamento: transformá-lo numa lista.
Noiva passando batom. Sapato. Perfume. Buquê. Joias. Convite.
Noiva no carro. Noivo entrando. Padrinhos entrando. Noivo esperando no altar. Noiva na porta. Entrada.
Alianças. Beijo. Saída.
“Ergue o buquê!” - Grita o fotógrafo (ou faz a mímica).
Mesa do bolo. Brinde. Fotos protocolares. Valsa. Buquê sendo jogado. Uma pequena sessão do casal.
Pronto.
Casamento fotografado?
Sim. Tecnicamente, foi.
Mas um casamento é muito, muito maior do que isso.
Talvez um dos equívocos mais persistentes na fotografia de casamento seja confundir o roteiro do evento com a história do evento.
O roteiro é previsível. A história, não.
E antes que alguém entenda isso como mais um discurso sobre “reinventar a fotografia de casamento”, convém colocar uma coisa no lugar.
Casamento não é exatamente uma novidade.
Há registros de cerimônias matrimoniais há milhares de anos. A Bíblia fala de casamentos. Mudam os vestidos, os rituais, a música, a estética, as festas, as famílias, os costumes.
Mas casamento continua sendo casamento.
Não precisamos fingir que reinventamos a instituição a cada temporada. Talvez também não precisemos fingir que reinventamos a maneira de fotografá-la.
A fotografia de casamento começou essencialmente pelo retrato formal. Durante muito tempo, registrar um casamento significava produzir algumas imagens posadas do casal e da família. Depois, as câmeras ficaram mais leves, mais rápidas, mais móveis. Saíram do estúdio e passaram a acompanhar o acontecimento.
Vieram as imagens espontâneas, o fotojornalismo, a linguagem documental, o editorial e tantas outras formas de enxergar.
Nada disso precisou eliminar o que existia antes.
E é aqui que, para mim, a conversa fica realmente interessante.
Talvez o problema não seja fotografar dentro de uma caixa.
Talvez seja acreditar que a nossa caixa é grande o suficiente para conter um casamento.
Começo pelo chamado making of.
A expressão já me causa algum sofrimento porque é escrita de tantas maneiras diferentes que meus olhos ardem. Mas meu problema maior não é ortográfico. É conceitual.
Making of não significa “dia da noiva”. É bastidor. É processo. É aquilo que existe por trás enquanto alguma coisa está sendo construída.
Por isso me coça inteira quando vejo uma equipe chegar com a noiva pronta para “fazer o making of”.
Bastidores do quê?
O cabelo acabou. A maquiagem acabou. O vestido já está no corpo. O processo aconteceu sem você.
Claro que ainda existem fotografias a fazer. A noiva está linda. Há vestido, acessórios, pessoas, retratos. Mas aquilo é outra coisa.
Para mim, o verdadeiro valor de chegar antes nem está apenas nas imagens que faço. Está no que acontece comigo durante esse tempo.
Toda a construção até o ápice — a noiva pronta — vai me inserindo naquela dinâmica. Começo a descobrir quem são aquelas pessoas. Quem fala. Quem observa. Quem organiza. Quem cuida. Quem faz rir. Quem está nervoso. Quem já começou a chorar muito antes de todo mundo.
Enquanto eu as conheço, elas também começam a me esquecer. Minha câmera deixa de provocar reação. Minha presença vai sendo absorvida.
Até que acontece exatamente o que procuro:
eu deixo de ser percebida.
Quando isso acontece, as pessoas voltam a simplesmente existir.
E eu já não chego à cerimônia fria. Conheço relações. Reconheço gestos. Sei quem é importante para quem.
Aquilo foi cobertura, mas também foi aquecimento. Do corpo. Do olhar. Da percepção.
E há uma coisa curiosa: grande parte dessas imagens talvez nunca entre no álbum. Tudo bem. Elas continuam fazendo parte da história.
Nem toda fotografia precisa ganhar uma página para justificar sua existência. Há imagens que criam contexto. Outras apresentam personagens. Algumas fazem a transição entre momentos.
Na minha cabeça, uma fotografia precisa dar a mão para a outra. Não penso num casamento como uma coleção de boas imagens isoladas. Penso numa narrativa.
Durante muito tempo, quando se falava em sair da caixa, eu mesma usava a expressão com muita naturalidade.
Até que, trabalhando como gestora, disse certa vez a um colaborador:
— Preciso que você saia da caixa.
Ele olhou em volta e perguntou:
— Que caixa?
Excelente pergunta. É muito fácil mandar alguém sair de um lugar que nunca definimos. Então, se estou convidando você a sair da caixa na fotografia de casamento, preciso primeiro dizer o que considero essa caixa.
Para mim, ela é qualquer limite que transforme o nosso próprio repertório no limite do casamento.
E isso vale para todos nós. Inclusive para mim.
Eu amo fotografia documental. Não gosto particularmente de colocar vinte pessoas paradas diante da câmera pedindo que todas olhem para mim. Ainda assim, faço.
Chamo essas fotografias de protocolares. E considero-as importantíssimas.
Porque minha preferência estética não pode decidir sozinha o que merece existir na história daquela família.
Uma imagem tradicional pode parecer pouco interessante para o fotógrafo e se tornar uma das mais importantes daquele álbum.
Pais. Avós. Irmãos. Padrinhos. Famílias reunidas.
Há uma razão pela qual esses retratos atravessaram gerações.
A fotografia documental não tornou o retrato formal inútil. Ela acrescentou possibilidades.
Aprendi algo parecido muitos anos atrás.
Eu já fotografava profissionalmente, já palestrava, já havia lançado livro e DVDs quando assisti a uma palestra do Faya, fotógrafo de moda, em um dos eventos dos quais participávamos.
E percebi uma coisa aparentemente óbvia:
moda tem muito a ensinar à fotografia de casamento.
Existe roupa. Existe caimento. Existe postura. Existe desenho. Existe a maneira como um tecido reage à luz. Existe um vestido no qual alguém investiu tempo, dinheiro, expectativa e desejo.
Não basta eu dizer: “não sou fotógrafa de moda”.
Naquele casamento, por alguns minutos, talvez eu precise saber olhar como uma.
O mesmo aconteceu comigo com comida. Eu praticamente não fotografava. Até que uma noiva reclamou que não havia imagens do que tinha sido servido em seu casamento.
Ela tinha razão.
Talvez nenhuma delas fosse ocupar uma página importante do álbum, mas aquele jantar tinha sido escolhido. Provado. Pago. Fazia parte daquele dia.
Minha responsabilidade era registrá-lo.
Lá fui eu aprender um pouco de fotografia de gastronomia.
A mesma lógica vale para arquitetura.
Uma igreja não é somente o lugar onde a cerimônia aconteceu. Um salão não é apenas um fundo. Espaço tem escala. Geometria. Luz.
Arquitetura localiza a história.
A fotografia de casamento, quando levada a sério, é talvez uma das áreas mais multidisciplinares da fotografia.
Em poucas horas precisamos transitar entre documental, retrato, moda, still life, gastronomia, interiores, arquitetura e fotografia de eventos.
Por que escolher apenas uma?
É aí que a conversa sobre estilos começa a me incomodar um pouco.
Não porque estilos não existam. Existem e são importantes para que o fotógrafo desenvolva identidade e para que o cliente entenda o que está contratando.
O problema é quando identidade vira limitação.
“Sou documental, portanto não poso.”
“Sou tradicional, portanto espero os acontecimentos protocolares.”
“Sou editorial, portanto tudo precisa ser dirigido.”
“Só trabalho com luz natural.”
“Só trabalho com flash.”
Quando um recurso que deveria ampliar a linguagem começa a determinar o que somos capazes de enxergar, talvez tenhamos construído outra caixa - e colocado nosso nome nela.
Um casamento comporta tudo isso. Aliás, talvez precise de muito disso.
Há momentos em que quero desaparecer e outros em que preciso assumir o comando.
Há situações em que quero a luz exatamente como ela está. Em outras, vou interferir nela.
Há imagens que encontro e imagens que construo.
Algumas precisam ser belas. Outras precisam ser informativas. Algumas existem para emocionar.
Outras simplesmente para dizer:
isso também estava lá.
Nenhuma linguagem, sozinha, dá conta de tudo.
E isso não diminui a autoria. Aumenta o repertório.
Claro que, dentro de tudo isso, existe a maneira como cada fotógrafo enxerga. É justamente aí que mora a assinatura.
Eu procuro mostrar aquilo que todos estão vendo de um jeito que talvez ainda não tenham visto.
Faço isso com uma reação. Com uma mesa posta. Com uma igreja. Com um vestido. Com um prato.
Com uma fotografia protocolar.
A criatividade não está necessariamente no assunto. Está na maneira de olhar para ele.
E esse olhar precisa ser treinado.
Enquanto fotografo os noivos, tento lembrar dos pais. Enquanto todos olham para quem está falando, procuro quem está reagindo. Se algo acontece no centro, quero saber o que existe nas bordas.
Depois da cerimônia há abraços, alívio, gente se procurando, avós sendo ajudados, crianças cansadas, pais observando.
O cronograma não lista nada disso.
Mas é casamento.
Esse exercício é contínuo.
E cansa.
Muito.
Não raro chego à cerimônia depois de já estar há seis horas naquele casamento, acompanhando o making of, observando, fotografando, entrando naquela história.
Quando finalmente chego à festa, percebo que quase não comi, mal bebi água, meus pés já estão negociando seriamente a própria demissão e a lombar protocolou o pedido.
Não romantizo isso. Dor não torna ninguém melhor fotógrafo.
Meus pés, inclusive, já fizeram questão de me explicar esse conceito na prática.
Depois a gente coloca uns parafusos e segue.
Risos.
Mas existe um tipo de cansaço que não vem apenas do peso das câmeras.
Prestar atenção cansa.
Manter pais, avós, crianças, amigos e dezenas de pequenas histórias dentro do campo mental enquanto o acontecimento principal segue seu curso exige exercício.
Talvez seja justamente isso que ainda me fascine depois de tantos anos.
O roteiro eu conheço. Não preciso de muita experiência para prever que haverá alianças. Beijo. Brinde. Bolo. Dança.
Se eu quiser, posso passar o dia esperando o próximo item e marcando mentalmente:
feito.
feito.
feito.
feito.
O problema é que, enquanto espero, o casamento continua acontecendo.
Para quem quer experimentar um pouco desse olhar mais amplo, tenho uma sugestão técnica.
Simplifique.
Pegue uma lente fixa e fique com ela por algum tempo.
Eu amo minha Sony 50 mm f/1.2. Clara, linda, com aquele desfoque elegante que separa o que me interessa sem arrancar a cena do ambiente.
Uma lente fixa me obriga a resolver distância com o corpo: aproximar, recuar, circula, procurar.
Gosto também, quando posso (e às vezes quando não posso, confesso), de baixar um pouco a velocidade e trabalhar sem flash, absorvendo a luz disponível.
A janela. A igreja. O abajur. A luz estranha do salão. A pista.
Não porque flash seja errado — seria exatamente cair em outra caixa, mas porque aprender a usar a luz existente acrescenta outra possibilidade ao repertório.
Diafragma aberto exige precisão. Velocidade baixa exige domínio. Lente fixa exige movimento.
Não é receita.
É exercício.
E, quando diminuímos algumas decisões de equipamento, às vezes sobra mais cabeça para a pergunta que realmente importa:
onde está a fotografia?
Talvez sair da caixa seja exatamente isso: não abandonar aquilo que sabemos, mas ampliar aquilo que conseguimos enxergar e fazer.
Um fotógrafo tradicional não precisa deixar de fazer fotografia tradicional. Um documental não precisa dirigir tudo. Um fotógrafo de moda não precisa abandonar seu rigor estético.
Mas podemos roubar — no melhor sentido — ferramentas uns dos outros.
Aprender retrato. Moda. Arquitetura. Gastronomia. Luz. Narrativa.
Aprender a dirigir.
Aprender a desaparecer.
Quanto maior o repertório, menor a chance de tentarmos reduzir o casamento ao tamanho daquilo que já sabemos fazer.
Porque a caixa sempre será menor.
Um casamento é grande demais para caber nela.
E se você ainda estiver olhando em volta e perguntando:
— Mas que caixa?
Melhor ainda.
Talvez seja justamente aí que começa.
Come with me. Outside the wedding box. 😂
Sobre a autora
Fernanda Marques é mãe, esposa e fotógrafa documental de casamentos desde 1998. Autora e palestrante, construiu sua trajetória contando histórias reais de casais e famílias. Ao lado do marido, Reinaldo Martins, compartilha a vida e também a fotografia. Para ela, uma imagem não registra apenas o que aconteceu. Ela preserva emoções, vínculos e instantes que um dia se transformarão em legado para as próximas gerações.



