Eu adoro quando o tempo me dá razão.


Que mulher não adora?!


Ainda mais quando uma ideia que parecia um pouco maluca há cinco, dez, quinze ou vinte anos reaparece, muito bem embalada, com um nome novo: tendência.


E eu penso: ora, mas nós já estávamos aqui.


A indústria do casamento sempre foi especialmente competente em empacotar desejos. Criamos tendências, paletas, poses, entradas, experiências e listas do que “tem que ter”. Durante muito tempo, casais chegaram ao próprio casamento carregando referências de outros casamentos: o da famosa, o da influenciadora, o daquele site, o daquela noiva que viralizou.


E, sem perceber, histórias absolutamente particulares começaram a tentar caber dentro das mesmas imagens.


Para minha alegria, alguma coisa parece estar mudando.


Os casais estão se abrindo mais para si mesmos.


Querem casamentos com a própria cara. Querem abraçar e tirar alguém do chão. Querem chorar feio. Querem sentar à mesa e jantar a comida que escolheram com carinho e na qual investiram dinheiro.

Querem beber, conversar, dançar, rir alto, reencontrar pessoas e aproveitar o próprio dia.


E isso, para quem fotografa documentalmente, é uma maravilha.


Porque quanto menos um casamento performa para a fotografia, mais fotografia existe.


Parece contraditório, mas não é.


Quanto menos tempo eu gasto fabricando uma imagem, mais tempo tenho para perceber as imagens que já estão acontecendo.


Casamento é vida.


É a convergência de pessoas amadas no mesmo dia, na mesma hora, no mesmo lugar. Pessoas que talvez nunca mais estejam reunidas daquela forma. É investimento de dinheiro, claro, mas sobretudo de expectativa, afeto, memória e emoção.


Merece ser vivido, não encenado.


A fotografia documental de casamento tem sido minha vida por toda uma vida.


Quando lançamos o livro Fotojornalismo em Casamento, em 2009, uma das ideias que eu defendia era justamente a mínima interferência do fotógrafo naquilo que acontecia. Menos direção da cena. Menos fabricação. Menos necessidade de transformar pessoas em personagens de uma fotografia idealizada.


Minha busca já era pela imagem que nascesse daquilo que as pessoas realmente faziam, sentiam e viviam.


Em 2026, continuo defendendo a mesma essência.


História.


Narrativa.


Relação.


Presença.


A fotografia com a avó não precisa ser simplesmente a noiva posicionada ao lado dela, as duas olhando para a câmera.


Pode ser o abraço.


O beijo na mão.


Aquelas mãos envolvendo o rosto da noiva — mãos que talvez tenham segurado aquela menina quando ela ainda era um bebê.


A fotografia com os padrinhos pode ser o brinde, a gargalhada, o abraço apertado demais, a piada que só aquele grupo entende.


Com os pais, então, quase sempre existe um universo inteiro acontecendo.


O olhar antes da cerimônia.


A tentativa de conter o choro.


Uma mão no ombro.


Um beijo demorado.


Aquilo que ninguém pediu para acontecer.


Talvez nem seja preciso chamar isso de pose.


São gestos.


São relações.


São pessoas sendo quem são umas com as outras.


E esse é um ponto que às vezes se perde quando falamos em fotografia documental: não se trata apenas de fotografar alguém sem que ela esteja olhando para a câmera.


Não é uma estética.


Não é uma imagem torta porque sim, um desfoque proposital, um preto e branco dramático ou uma fotografia com aparência de espontânea.


Exige presença.


Exige observar.


Antecipar.


Entender relações.


Mudar de posição.


Perceber o que acontece fora do centro da cena.


E, talvez principalmente, saber quando não interromper.


Eu gosto de estar dentro do casamento. De submergir nas emoções alheias, procurar relações, perceber gestos e antecipar aquilo que revela quem aquele casal é.


É desse mergulho que nasce a fotografia que me interessa.


Porque um casamento vivido assim pode se transformar em um álbum extraordinário. Um livro capaz de transportar de volta para aquele dia, aquela sala, aquele abraço, aquela música.


Um livro capaz de fazer sorrir anos depois.


E, às vezes, de fazer brotar uma lágrima daquelas que a gente nem percebe chegando — só sente o calor descendo pelo rosto.


É isso que eu quero entregar.


Não apenas fotografias bonitas do casamento.


Talvez seja por isso que eu cuide tanto do livro.


Quando fotografo um casamento, penso no que acontece diante de mim. Quando faço a curadoria e a diagramação, penso em como aquela história será reencontrada.


O que vem antes.


O que precisa de silêncio.


O que merece uma página inteira.


Que imagens se conversam.


Em que momento a narrativa acelera e em que momento precisa respirar.


Um álbum de casamento, para mim, nunca foi apenas o produto final de uma cobertura.


É a forma que a memória encontra de voltar a respirar.


Quando o casal abre aquele livro anos depois, eu não quero apenas que reconheça as imagens.


Quero que alguma coisa aconteça novamente.


Quero que, ao abrir aquele álbum, eles consigam voltar.



Durante muito tempo, a indústria ensinou os casais a pensar em como cada parte do casamento pareceria.


Hoje, fico feliz vendo mais casais interessados em como aquele dia vai ser sentido.


Talvez seja esse o movimento mais interessante de todos.


Não abandonar a estética.


Não deixar de planejar.


Não deixar de escolher uma mesa bonita, uma flor linda, uma roupa extraordinária ou uma comida memorável.


Mas permitir que, depois de tudo escolhido, o casamento aconteça.


Que as pessoas ocupem os espaços.


Que a festa fique bagunçada.


Que a maquiagem borre.


Que o vestido amasse.


Que o cabelo saia do lugar.


Que o pai chore.


Que a avó aperte.


Que os amigos gritem.


Que os noivos comam.


Que bebam.


Que dancem.


Que vivam.


Porque é justamente quando a perfeição começa a se desfazer que muitas das fotografias mais importantes aparecem.


E talvez seja por isso que eu goste tanto desse momento.


Depois de décadas fotografando casamentos, vejo ideias que defendi lá atrás voltarem com força, agora apresentadas como desejo contemporâneo, autenticidade, experiência, presença, fotografia documental.


Ótimo.


Eu adoro quando o tempo me dá razão.


Se você vai se casar assim, vivendo de verdade o próprio casamento, eu quero fotografar vocês.


Em 2026, chamam isso de tendência.


Eu continuo chamando de casamento.




Sobre a autora

Fernanda Marques é mãe, esposa e fotógrafa documental de casamentos desde 1998. Autora e palestrante, construiu sua trajetória contando histórias reais de casais e famílias. Ao lado do marido, Reinaldo Martins, compartilha a vida e também a fotografia. Para ela, uma imagem não registra apenas o que aconteceu. Ela preserva emoções, vínculos e instantes que um dia se transformarão em legado para as próximas gerações.


Two women laughing and sharing a joyful moment together at a formal event, captured in black and white photography.
Black and white photo of a smiling bride and groom embracing, showcasing her wedding ring during their first dance.
Black and white wedding photo of a smiling bride in a tiara holding bouquet, surrounded by guests outdoors.
Two women smiling and exchanging flowers at a formal event in black and white photo.