Quando pensamos em um álbum de casamento, quase conseguimos imaginar o que encontraremos antes mesmo de abri-lo.


A noiva se maquiando.


Ou o famoso fake: quando o fotógrafo chega depois de a maquiagem estar pronta e pede que ela finja passar novamente o batom ou o rímel.


Existe também o igualmente conhecido:


“Faz de novo.”


O gesto aconteceu espontaneamente, mas não foi fotografado. Então ele é interrompido, reconstruído e repetido para a câmera.


Isso não significa que toda imagem dirigida seja falsa. Em muitos retratos, a direção faz parte da proposta e todos sabem que aquela fotografia está sendo construída.


A diferença está em reencenar um acontecimento para que ele pareça espontâneo.


O sapato ao lado do perfume, dos brincos, do terço e do buquê.


A noiva pronta, olhando pela janela.


A noiva no carro, sorrindo.


O encontro com o pai.


A entrada na cerimônia.


E a sequência continua.


Não pense que sou contra essas fotografias mais tradicionais.

Ao contrário.


Elas são quase tão tradicionais quanto o próprio casamento. Fazem parte da história e, quando não existem, muitas vezes fazem falta.


A fotografia clássica — também chamada de tradicional ou formal — privilegia imagens cuidadosamente organizadas. Em geral, são fotografias bem iluminadas, sem sombras marcadas, com as pessoas de frente, olhando e sorrindo para a câmera.


Há os retratos do casal.


Os grupos de amigos.


As famílias reunidas.


A avó posicionada entre os noivos diante da mesa do bolo.


Durante décadas, esse foi o estilo predominante na fotografia de casamento.


Nele, o fotógrafo atua como diretor. Organiza as pessoas, escolhe as posições, determina a luz e constrói a imagem.


São fotografias importantes para compor um álbum de casamento.


Depois, o fotojornalismo começou a ocupar espaço.


E, durante algum tempo, muita gente — inclusive fotógrafos — acreditou que fotojornalismo fosse simplesmente uma fotografia em preto e branco, com as pessoas olhando para qualquer direção, menos para a câmera.


Às vezes, bastava inclinar um pouco o enquadramento.


Pronto.


Parecia fotojornalismo.


Mas não era.


Como abordamos em nosso livro Fotojornalismo em Casamento — Informação & Inspiração, publicado em 2009 pela Editora iPhoto, o fotojornalismo é o registro dos acontecimentos sem a interferência do fotógrafo.


Sem dirigir a cena.


Sem pedir que algo seja repetido.


Sem inserir luz.


Porque, a partir do momento em que o fotógrafo acrescenta uma luz que não existia, ele modifica visualmente aquilo que estava acontecendo.


Interfere na cena.


O princípio é registrar o fato tal como ele ocorreu.


O foco está no acontecimento.


Não na produção.


O fotógrafo espera.


Observa.


Antecipa.


E registra.


Sua pergunta principal é:


O que aconteceu?


Existem ainda outras linguagens.


Na fotografia fine art, o objetivo está fortemente ligado à criação de beleza estética. O fotógrafo constrói imagens visualmente elaboradas, com atenção especial à luz, ao cenário, às formas e à composição.


O estilo editorial se inspira na fotografia de moda. Há direção intensa, controle visual e uma produção mais sofisticada. O casal não apenas é fotografado: participa da construção da imagem.


Já no estilo lifestyle, existe espontaneidade, mas ela é provocada pelo fotógrafo.


Em vez de dizer:


“Olhem para mim.”


Ele pode dizer:


“Abracem-se.”


“Conversem.”


“Andem juntos.”


“Conte um segredo no ouvido dela.”


A reação pode ser verdadeira.


O gesto pode parecer natural.


Mas a situação nasceu de uma orientação.


E então chegamos à minha paixão: a fotografia documental.


Ela começou a ocupar um espaço diferente em minha vida quando passei a perguntar o porquê de cada fotografia fotojornalística que fazia.


Já não me bastava saber o que havia acontecido.


Eu queria compreender por que aquilo importava.


Passei a questionar cada imagem.


O que existia ali além do gesto?


Quem eram aquelas pessoas?


Que relações estavam sendo reveladas?


O que aquela fotografia contaria quando o casamento já estivesse distante?


Essa inquietação me levou a estudar, compreender, namorar e admirar cada vez mais a intenção narrativa.


Porque o que distingue a fotografia documental não é simplesmente a espontaneidade.

É o significado.


Se o compromisso do fotojornalismo é mostrar o fato, a fotografia documental dá um passo à frente do acontecimento.


Ela reflete sobre ele.


O fotojornalismo pergunta:


O que aconteceu?


A fotografia documental pergunta:


O que aquilo significou para aquelas pessoas?


Esse passo à frente não estabelece uma hierarquia entre as linguagens.


É um passo de reflexão.


De compreensão.


De intenção narrativa.


E, curiosamente, para conseguir dar esse passo à frente, o fotógrafo documental permanece um passo atrás durante todo o evento.


Observa.


Entende.


Analisa.


Espera.


É preciso calma para clicar.


Essa calma parece cada vez mais rara.


As câmeras modernas conseguem produzir dezenas de imagens em poucos segundos. Basta manter o botão pressionado e a máquina registra uma sequência tão longa que quase se aproxima de um vídeo.


A tecnologia é extraordinária.


Mas, com frequência, vejo fotógrafos que deixaram de fotografar para apenas apertar botões.


A câmera dispara.


Dispara.


Dispara.


Uma metralhadora de imagens.


Depois, procura-se uma fotografia dentro daquela avalanche.


Não sou contra o disparo contínuo. Há situações em que ele é necessário e útil.


O problema surge quando a velocidade substitui a atenção e o fotógrafo deixa de antecipar e escolher o instante para apenas reagir ao que acontece.


Fotografar não é registrar indiscriminadamente tudo o que passa diante da câmera.


É compreender o que merece permanecer.


Voltando aos estilos: eles não são inimigos.


Ao contrário.


Podem se complementar e contar a mesma história de maneiras diferentes.


Eu amo a forma como Rei Martins consegue mesclar a fotografia tradicional, o lifestyle e o fine art.


Ele constrói a luz que deseja.


Dirige na medida.


Organiza sem endurecer.


O resultado é uma fotografia bonita, equilibrada e gostosa de olhar.


Poucos fotógrafos conseguem transitar entre essas linguagens com tanta naturalidade.


Eu sigo de outra maneira.


Continuo observando.


Aproveito a luz que existe.


O momento.


E também aquilo que acontece nas costas do momento.


Espero o suspiro.


Gosto de entrar na sintonia da respiração do outro.


Sem pressa.


Faço muitos cliques durante um casamento, mas não em uma sequência energética, automática e sem controle.


Fotografo muitos momentos.


Às vezes, o mesmo acontecimento continua diante de mim e eu sigo acompanhando.


Não porque esteja esperando uma expressão perfeita.


Mas porque percebo que ele ainda não terminou.


O gesto cresce.


A emoção se transforma.


A relação se revela.


Até que aquele momento alcança seu êxtase.


Seu clímax.


Seu ápice.


E eu clico.


É claro que nem toda imagem precisa nascer dessa espera.


As fotografias tradicionais permanecem necessárias.


Os retratos do casal têm seu lugar.


As famílias querem estar juntas diante da câmera.


A decoração merece ser registrada.



Há imagens que fazem parte da memória visual de um casamento e não precisam ser abandonadas em nome de nenhum estilo.


Mas as fotografias que mais me impactam quase nunca são aquelas que conseguimos prever.


São as que acontecem enquanto todos estão ocupados vivendo.


Um olhar que dura poucos segundos.


Uma mão que procura outra.


Um pai que respira fundo antes de entrar.


Uma mãe que observa de longe.


Um abraço que se aperta um pouco mais antes de terminar.

Um silêncio que revela tudo.


Talvez as fotografias mais impactantes raramente sejam planejadas porque não foram produzidas para parecer verdadeiras.


Elas foram vividas.


E algumas delas parecem ter alma.



Sobre a autora


Fernanda Marques é mãe, esposa e fotógrafa documental de casamentos desde 1998. Autora e palestrante, construiu sua trajetória contando histórias reais de casais e famílias. Ao lado do marido, Reinaldo Martins, compartilha a vida e também a fotografia. Para ela, uma imagem não registra apenas o que aconteceu. Ela preserva emoções, vínculos e instantes que um dia se transformarão em legado para as próximas gerações.