2026 tem sido, para mim, um ano de retorno.
Não exatamente um retorno à fotografia, porque ela nunca deixou de fazer parte de mim. Mas um retorno decidido, inteiro, àquele que sempre foi o meu lugar no mundo: a fotografia de casamento.
E, no meio desse movimento, aconteceu algo que transformou uma sensação em matéria concreta diante dos meus olhos.
A edição 350 da Fotografe Melhor chegou trazendo uma fotografia minha na capa e uma matéria de doze páginas sobre meu trabalho.
Capa. Doze páginas. Muitas imagens. Uma longa entrevista.
Quase três décadas de carreira espalhadas diante de mim. Que satisfação.
A entrevista conduzida por Sergio Branco, diretor de redação da revista, já havia sido uma experiência muito especial. As perguntas me fizeram voltar a acontecimentos, decisões e fases profissionais que há muito tempo eu não visitava.
Depois veio a tarefa de procurar fotografias para acompanhar a matéria. Foi quando tudo ficou ainda mais interessante. Abri arquivos de épocas completamente diferentes e, por algumas horas, me senti uma espécie de Marty McFly da fotografia de casamento. [risos]
Uma imagem me levava para um evento de vinte anos atrás. Outra fazia lembrar qual câmera eu usava, que lente estava comigo, como eu trabalhava naquele período. Em determinado momento pensei que meus pés ainda nem tinham sido operados e que eu fotografava casamentos de salto alto. Que mulher maluca!
Mas havia algo ainda mais curioso naquele mergulho. Eu encontrava várias versões de mim mesma.
A Fernanda que começava. A que ainda precisava provar que era profissional. A que descobria coisas intuitivamente e depois ia estudar para entender por que funcionavam. A que escreveu um livro. A que deu palestras. A que teve certezas que mais tarde abandonou. A que se afastou. A que decidiu voltar.
Todas sou eu.
Mas nenhuma é exatamente a mulher que escreve este texto. Não acredito que o tempo, sozinho, transforme alguém. Há quem atravesse décadas carregando a mesma velha opinião formada sobre tudo.
Eu não.
Eu me permito mudar. Aprendo. Erro. Reavalio. Abandono ideias que já não fazem sentido. Incorporo outras. Mudo de opinião quando encontro razões melhores. Me entrego às novas versões de mim mesma. Talvez por isso eu consiga olhar para uma imagem feita há vinte anos e reconhecer quem a produziu sem desejar continuar sendo exatamente aquela profissional. A essência permanece. A essência permanece. Ainda bem que o resto mudou.
Hoje sou uma versão mais experiente, mais consciente e provavelmente mais interessante daquela Fernanda de 1998.
Um pouquinho ciborgue também, considerando os pinos nos pés. [risos]
Escolher fotografias — ou escolher filhos
Quando chegou a hora de mandar imagens para a revista, descobri que havia uma parte do trabalho que eu simplesmente não conseguiria fazer. Escolher. Depois de tantos casamentos, como selecionar algumas fotografias para representar uma carreira inteira? Me senti escolhendo o filho mais amado. Desisti.
Enviei algumas imagens e deixei boa parte da decisão nas mãos do destino — que, neste caso, atendia pelo nome de Sergio Branco.
E ainda houve uma fotografia específica que quase ficou de fora.
O Rei insistiu para que eu a enviasse.
É justamente a imagem que acabou na capa.
A cena aconteceu durante o making of de uma noiva. O cinegrafista havia pedido que ela se sentasse e levantasse o vestido para mostrar o sapato.
A fotografia não é daquela ação.
É do instante anterior.
Quando olhei para a cena, não vi sapato, vi a luz entrando pela janela, o desenho do vestido, a posição do corpo, as linhas do ambiente. Vi quase uma pintura pronta diante de mim.
Cliquei.
Gosto muito daquela imagem, mas provavelmente não a teria escolhido para representar uma matéria sobre fotografia documental.
O Rei achou que ela precisava estar entre as opções.
Ele estava certo.
Foi para a revista.
Virou capa.
Talvez exista aqui uma pequena lição sobre fotografia e casamento.
Às vezes é bom ouvir o marido. [risos]
“Referência no mercado” Receber a notícia da capa já havia sido emocionante. Mas houve outro instante, mais silencioso, que me atingiu de um jeito diferente.
Abri a matéria e li:
“Referência no mercado.”
Respirei fundo.
Segurei a emoção.
Não porque eu estivesse esperando que alguém me dissesse quem sou. Eu sabia qual era o meu lugar.
Mas existe uma diferença entre saber alguma coisa intimamente e vê-la reconhecida por alguém de fora.
Foi uma espécie de confirmação.
Como se alguém importante colocasse a mão no meu ombro e dissesse:
Bem-vinda de volta ao seu lugar no mundo.
E, na minha cabeça, a frase continuava:
A fotografia de casamento estava te esperando. Com saudades.
Talvez esse tenha sido o verdadeiro peso dessa edição para mim.
Eu poderia ser lembrada pelo que fiz vinte anos atrás. Seria bonito. Mas não é isso que quero.
Não quero viver da profissional que fui. Quero ser reconhecida pela fotógrafa que sou agora.
Esse é o pulo do gato.
O mercado mudou. A tecnologia mudou. A maneira de comunicar mudou. Os casamentos também mudaram. Eu mudei junto.
Quem para de aprender começa, aos poucos, a pertencer exclusivamente ao próprio passado.
Tenho enorme carinho pela minha trajetória, mas meu interesse está no que ainda posso fazer com tudo o que aprendi.
Quero acompanhar mudanças, experimentar, estudar, discordar de mim mesma quando necessário, incorporar novas ferramentas e, quando tiver algo realmente novo a acrescentar, ajudar também a empurrar a profissão para frente.
Eu não quero assistir ao futuro chegar.
Quero estar nele.
A dúvida que existia
Quando decidi voltar com força aos casamentos, havia uma pergunta que eu precisava responder.
Não era se eu ainda sabia operar uma câmera.
Isso o corpo não esqueceu.
A dúvida era mais profunda.
Será que eu ainda conseguiria desligar o resto do mundo em camadas até sobrar apenas aquilo que estava acontecendo diante de mim?
Será que aquele estado de concentração absoluta voltaria?
Será que eu perceberia uma situação se formando e reagiria exatamente no milésimo de segundo em que expressão, gesto, posição e enquadramento se encontrassem? Eu não queria pensar demais. Não queria chegar atrasada ao instante. Não queria descobrir que, em algum ponto do caminho, havia perdido aquela resposta quase instintiva entre perceber e fotografar.
Não perdi. Ela estava lá. Talvez até mais apurada.
Há coisas que a experiência automatiza justamente para deixar a cabeça livre para o que realmente importa.
E uma parte de mim respirou aliviada quando percebeu isso.
O homem que sabia
Talvez ninguém tenha acompanhado tantas versões minhas quanto o Rei. Parceiro de trabalho, de vida e de amor. Foi ele quem percebeu, durante uma fase em que eu estava mais afastada da fotografia, algo que eu própria ainda não tinha conseguido organizar.
Um dia me fez uma pergunta muito simples:
“O que te deixa feliz?”
A resposta veio imediatamente.
Fotografar casamentos.
Não fotografar genericamente. Casamentos. Estar naquele universo. Chegar com as câmeras. Procurar.
Voltar para casa exausta e, ainda assim, ansiosa para descobrir o que conseguimos produzir.
Foi também o Rei quem começou a reconstruir concretamente esse retorno. Pensou em equipamentos, câmeras, nas lentes de que eu gostava, naquilo que faria sentido para mim.
Ele cuida de detalhes que talvez mais ninguém soubesse perceber.
É minha alma gêmea e meu parceiro para a vida inteira.
Por isso, de alguma maneira, esta capa também passa por ele.
E aquela menina?
Às vezes penso na Fernanda de 18 ou 19 anos. Na garota de 45 quilos, cabelo joãozinho, tentando convencer as pessoas de que, apesar da aparência quase adolescente, ela sabia o que estava fazendo.
Minha infância não teve algumas das coisas mais básicas. Minha formação acadêmica veio muito mais tarde. Construí trabalho, família, estudo e carreira numa ordem bastante particular.
Se aquela garota pudesse abrir hoje a edição 350 da Fotografe Melhor e descobrir que aquela fotógrafa da capa era ela mesma quase três décadas depois, acho que diria:
Uau.
Eu também disse. Não por acreditar que seja a melhor fotógrafa. Não é disso que se trata. É orgulho pelo caminho. Pelos sacrifícios. Pelas perdas. Pelo tanto que precisei aprender. Pelos erros que me obrigaram a mudar. Pela entrega. Pelo trabalho. Pela quantidade de vezes que poderia ter escolhido outra direção e, de algum jeito, acabei encontrando novamente esta.
Aos 15 ou aos 20 anos, o futuro é uma coisa abstrata.
Aos 46, comecei a perceber que é possível tocá-lo.
E isso talvez seja uma das sensações mais bonitas desta fase da vida. Porque hoje consigo olhar para trás sem desejar voltar. E consigo olhar para frente sabendo exatamente o que quero fazer. Quero fotografar. Muito.
Quero terminar um casamento com aquela sensação deliciosa de que trouxe para casa muitas fotografias extraordinárias.
Quero sentar diante do computador ansiosa para abrir os arquivos. Quero mostrar uma imagem para o Rei e vê-lo alegar, como sempre, que as melhores são dele. [risos] Quero continuar me surpreendendo, aprendendo, criando e trabalhando. Quero viver tudo o que essa profissão ainda tiver para me oferecer.
Por isso, quando olho para esta capa, não tenho a sensação de estar diante de uma homenagem ao que passou. Muito pelo contrário.
Ela não me parece um ponto de chegada.
Parece a confirmação de que o próximo capítulo já começou.
O que senti ao ver quase três décadas de fotografia de casamento transformadas em capa e em doze páginas da edição 350 da Fotografe Melhor.
Sobre a autora
Fernanda Marques é mãe, esposa e fotógrafa documental de casamentos desde 1998. Autora e palestrante, construiu sua trajetória contando histórias reais de casais e famílias. Ao lado do marido, Reinaldo Martins, compartilha a vida e também a fotografia. Para ela, uma imagem não registra apenas o que aconteceu. Ela preserva emoções, vínculos e instantes que um dia se transformarão em legado para as próximas gerações.



