Tenho medo de barata.
E tenho medo deste texto.
Meu retorno à fotografia de casamento tem sido, ao mesmo tempo, delicioso, curioso e profundamente inquietante. Voltei para uma profissão que conheço há quase três décadas e encontrei muitas coisas que reconheço — e outras que ainda estou tentando compreender.
Não quero atacar ninguém. Muito menos desmerecer novas ideias, novas formas de trabalhar ou profissões que surgiram nos últimos anos, período em que estive mais dedicada à vida acadêmica e a outros projetos.
Talvez eu esteja apenas tentando entender o que estamos fazendo com aquilo que deveria ser vivido.
Há uma frase que se repete, de diferentes maneiras, em discursos de casamento. Uma ideia bonita e essencial: as pessoas que estão ali foram escolhidas porque são amadas, porque importam, porque fazem parte da história daquele casal.
E isso me faz pensar.
Se todos os que importam estão ali, para quem estamos contando o casamento em tempo real?
Para quem o storymaker ou o wedding content creator publica, minuto a minuto, no Instagram dos noivos?
Não é uma provocação à profissão.
É uma pergunta genuína.
Para quem?
Já escrevi sobre outra inquietação parecida em A quem pertence o casamento, afinal?
Hoje, em alguns eventos, cada empresa leva sua própria equipe para registrar o trabalho da própria equipe enquanto ela trabalha.
Há alguém fotografando quem fotografa.
Alguém filmando quem filma.
Alguém produzindo conteúdo sobre quem está produzindo o casamento.
E às vezes tenho a sensação de que o próprio casamento ficou pequeno dentro de tudo isso.
O que é estranho, porque um casamento é gigantesco.
Não em tamanho.
Em significado.
É um acontecimento singular na vida de duas pessoas, de suas famílias e de seus amigos. Um daqueles raros dias em que pessoas de tempos e lugares diferentes da nossa existência ocupam o mesmo espaço.
Avós, pais, irmãos, amigos da infância, amigos de agora.
Histórias inteiras reunidas em algumas horas.
E, ainda assim, tenho a impressão de que o casamento já não basta.
O acontecimento em si parece não ser suficiente para entreter.
Os convidados fotografam e filmam durante praticamente toda a festa.
Não apenas registram o que vivem.
Muitas vezes vivem através da tela.
Noivas passam parte do dia acompanhando o que está sendo publicado sobre elas.
Já vi maquiadoras precisarem pedir que a noiva deixe o celular por alguns segundos para que consigam comparar seus olhos.
Um está fechado enquanto recebe a maquiagem.
O outro permanece aberto.
Olhando para uma tela.
E eu penso em uma frase que tento carregar para a minha própria vida:
Be here.
Esteja aqui.
Carpe diem.
Viva agora.
Parece simples.
Talvez esteja ficando cada vez mais difícil.
Vivemos o presente e, simultaneamente, acompanhamos a representação daquele presente.
Estamos numa festa e vemos a festa pelo Instagram.
Estamos diante de alguém que amamos e observamos aquela pessoa pela câmera do telefone.
A emoção acontece diante de nós — mas nossa atenção está alguns centímetros adiante, numa tela.
E há uma pergunta que não consigo afastar:
Do que vamos nos lembrar?
Talvez minha pós-graduação em Neurociência e Comportamento tenha tornado essa pergunta ainda mais incômoda.
Porque memória não funciona como uma câmera.
Nosso cérebro não grava continuamente tudo aquilo que acontece diante de nós para depois simplesmente reproduzir o arquivo.
Para que uma experiência venha a se tornar uma lembrança, ela precisa primeiro ser percebida e codificada. E a atenção participa diretamente desse processo.
Não guardamos tudo.
Selecionamos.
Estar fisicamente presente, portanto, não significa necessariamente estar cognitivamente presente.
Quando dividimos nossa atenção entre a pessoa diante de nós, o enquadramento do celular, a notificação que chegou, aquilo que está sendo publicado e a reação de quem está do outro lado da tela, estamos distribuindo um recurso limitado.
A atenção.
Isso não significa que fotografar impeça alguém de formar uma memória. Seria uma conclusão simplista e, curiosamente, contrária àquilo em que acredito como fotógrafa.
Uma fotografia pode ser uma extraordinária pista de recuperação de memória.
Anos depois, uma imagem pode fazer reaparecer uma voz, um cheiro, uma sensação, uma pessoa, uma história inteira.
Mas existe uma diferença importante entre a fotografia que nos devolve a uma experiência e a tentativa de transformar toda a experiência em registro.
A emoção também participa desse processo.
Não por acaso, algumas cenas atravessam décadas enquanto outras desaparecem em poucos dias. O cérebro não arquiva nossas vidas segundo uma ordem cronológica perfeita. Algumas experiências permanecem porque receberam atenção, significado e emoção.
Depois, essas memórias ainda passam por processos de estabilização, consolidação e reconstrução.
Lembrar não é apertar o play.
Toda lembrança é, em alguma medida, reconstruída.
É por isso que me interessa tanto a presença.
Porque aquilo a que prestamos atenção enquanto uma história está acontecendo participa do material que nosso cérebro terá disponível para reconstruí-la depois.
Um cheiro.
Uma música.
A temperatura daquela noite.
O braço da mãe envolvendo o nosso.
A voz do pai um pouco trêmula.
O barulho da festa do outro lado da porta.
O frio na barriga antes de entrar.
A sensação de uma mão apertando a nossa.
Tudo isso participa daquilo que, anos depois, chamaremos de lembrança.
Mas, para que uma experiência se transforme em uma lembrança verdadeiramente nossa, primeiro precisamos estar presentes nela.
E é aqui que a quantidade de registros começa a me inquietar.
Registramos para não esquecer.
Mas, enquanto registramos, talvez algumas vezes prestemos menos atenção justamente àquilo que desejávamos lembrar.
Não é preciso transformar isso numa guerra contra celulares.
Eu também fotografo.
Minha profissão existe porque acreditamos que certas imagens merecem permanecer.
A questão não é registrar ou não registrar.
É quem está vivendo enquanto alguém registra.
Talvez uma das funções mais bonitas de um fotógrafo seja justamente esta:
permitir que outras pessoas não precisem fotografar.
Eu observo.
Eu espero.
Eu registro.
Para que aquela mãe possa abraçar.
Para que aquele pai possa chorar.
Para que os amigos possam gritar, dançar, beber, rir.
Para que os noivos possam estar ali.
Inteiros.
Talvez seja também por isso que me cause certa angústia ver tantas pessoas registrando momentos que provavelmente nunca voltarão a assistir.
Não por falta de carinho.
Por falta de tempo.
São milhares de fotografias.
Centenas de vídeos.
Dezenas de stories.
Horas de material.
Seria preciso quase uma segunda vida para rever tudo aquilo que produzimos durante a primeira.
Uma vida para viver.
Outra para assistir ao que registramos enquanto vivíamos.
E quem tem duas vidas?
Essa inquietação também alcança minha própria profissão.
Hoje as câmeras são extraordinárias.
Rápidas.
Precisas.
Inteligentes.
Reconhecem olhos, rostos, movimentos.
Disparam dezenas de fotografias em poucos segundos.
Programas ajudam a identificar foco, exposição, olhos abertos e até selecionar imagens entre sequências muito semelhantes.
É tecnologia impressionante.
E eu agradeço por ela.
Mas continuo acreditando que fotografar envolve decisão.
No dia seguinte a um casamento, meus braços costumam me lembrar de como fotografei.
Porque passo longos períodos sustentando uma lente diante dos olhos.
Esperando.
Procurando.
Esperando um olhar se formar.
Uma mão tocar outra.
Uma lágrima surgir.
Um suspiro.
Uma reação.
O instante em que alguma coisa deixa de ser apenas uma cena e passa a significar alguma coisa.
Então eu aperto o botão.
Uma vez.
Talvez duas.
Não porque minha câmera não seja capaz de fazer vinte fotografias naquele segundo.
Ela é.
Mas porque ainda gosto de pensar que fotografar é escolher.
Eu escolho o momento.
Não escrevo isso para romantizar uma fotografia de outra época.
Também uso câmeras modernas.
Também agradeço pela rapidez do foco, pela qualidade em pouca luz, pela liberdade que a tecnologia nos deu.
Mas não quero que a capacidade de registrar tudo nos faça perder a responsabilidade de perceber alguma coisa.
Porque talvez este seja o paradoxo mais estranho do nosso tempo:
Nunca produzimos tantas imagens.
Nunca tivemos tantos registros de nossas vidas.
Nunca documentamos tanto aquilo que fazemos.
E, mesmo assim, começo a me perguntar se estamos realmente nos lembrando mais.
Talvez fotografar tudo não seja o mesmo que guardar.
Talvez assistir não seja o mesmo que viver.
Talvez registrar não seja o mesmo que lembrar.
Um casamento oferece tantas coisas para serem sentidas.
Um rosto conhecido entrando pela porta.
Uma música que significa alguma coisa.
Um abraço que demorou mais do que o habitual.
Uma pessoa que talvez nunca mais esteja reunida com todas aquelas outras novamente.
Tanto para viver.
Tanto para sentir.
E nossa atenção em outro lugar.
Tenho medo de barata.
Mas ultimamente tenho descoberto outro medo.
O de termos mais fotografias do que qualquer geração antes de nós — e menos lembranças verdadeiramente nossas.
Tantas fotos.
Poucas memórias.
Sobre a autora
Fernanda Marques é mãe, esposa e fotógrafa documental de casamentos desde 1998. Autora e palestrante, construiu sua trajetória contando histórias reais de casais e famílias. Ao lado do marido, Reinaldo Martins, compartilha a vida e também a fotografia. Para ela, uma imagem não registra apenas o que aconteceu. Ela preserva emoções, vínculos e instantes que um dia se transformarão em legado para as próximas gerações.



